domingo, 16 de maio de 2010

Darwinismo versus religião ou como se passar por autoridade e enganar os incautos

A motivação para escrever no blog hoje é um assunto polêmico, inconclusivo, mas que é utilizado como substrato para vender livros, jornais e revistas. Neste último caso é quando mais aparece a falta de compromisso com o conhecimento. Trata-se da polêmica darwnismo versus religião.

A aproximação da Semana Santa, comemorada no início do mês de abril levou a empresa Data Folha do grupo Folha de São Paulo a realizar uma pesquisa, cujos resultados foram publicados na edição do dia 03/04/2010 e foram alvo de editorial do jornal no mesmo dia, intitulado "Entre Deus e Darwin". Uma semana depois o mesmo assunto voltou a ser exposto pelo colunista Marcelo Gleiser no caderno Mais do mesmo jornal, com o título "Mitos, ciência e religiosidade".

Os resultados da pesquisa mostraram que a maioria dos brasileiros (59%) acreditam em um Deus criador e supervisor, todavia aceitam a possibilidade de que a vida possa ter passado por um processo evolutivo nos moldes darwinistas; 25% são criacionistas estritos e apenas 8% são evolucionistas estritos. Com esses resultados e comparando-os com os resultados de pesquisas análogas feitas em outros países, especialmente nos EUA os editorialistas do jornal invocam o caráter conciliatório e sincrético das crenças e do pensamento do brasileiro para argumentar que no Brasil não há lugar para conflitos de idéias, como ocorre nos EUA, com os evangélicos tentando impor o ensino religioso e o criacionismo nas escolas, num verdadeiro confronto de poder. A conclusão do editorial, com base nos dados da pesquisa, é de que não há espaço para polêmicas importadas de fora. Conclusão pretensiosa e arrogante!!

Já o texto do Marcelo Gleiser é dogmaticamente conciliatório, rejeitando o ateísmo e considerando-o radical demais. Utiliza os argumentos de dois grandes cientistas, Richard Dawkins e Carl Sagan para sustentar a sua tese de que a melhor opção é o agnosticismo e dá uma visão simplista da ciência (oras está escrevendo para o grande público, não é?), apesar de ele mesmo ter formação científica.

Fico perplexo com essas posturas divulgadas em grandes meios de comunicação por profissionais experientes e qualificados, pois imagino qual a motivação que os leva a escrever esse tipo de texto. Penso que a principal motivação é econômica, pois é necessário vender o jornal e o público que lê o jornal é, na sua maioria, religioso, não importa o credo. Eu concordo que a religião existe há milênios e que os religiosos não deixarão de ser religiosos só por causa das descobertas científicas, isso porque a religiosidade parece ser intrínseca, própria das pessoas. Mas há pessoas que não manifestam religiosidade; como explicar isso? A religiosidade é fruto de milênios de condicionamento e é difícil tirar isso com cerca de trezentos anos de pensamento científico. Todavia, considero que a postura dos meios de comunicação pretensiosa e arrogante (insisto!!), quando se imaginam porta vozes da cultura de um povo e quando manobram para apontar o que as pessoas devem pensar.

O raciocínio é simples: a maioria das pessoa concilia a religião e a ciência, logo, não há nem pode haver confronto; ou então, ausência de evidência não é evidência de ausência (traduzindo: se não há provas da existência de Deus, não significa que ele não exista; logo, Deus deve existir). Ou ainda, a maioria das pessoas acredita em algo, logo deve ser bom!!! Oras, francamente!!! Eu prefiro argumentar que, se temos que pensar que existe uma divindade que é responsável por tudo o que podemos conhecer, então vamos parar de fazer ciência e vamos viver todos em beatitude, esperando pelo juízo final! Para que se dar ao trabalho de investigar a natureza?

Por isso, atrevo-me a dizer que essas posturas acabam encobrindo as tentativas de manipulação das mentalidades dos ignorantes e dos que têm medo do que vem depois da morte (o fim de tudo??? o nada??? a reintegração da matéria-energia ao cosmos??? Certamente nem o paraíso, nem o inferno, muito menos uma vida após a vida, com uma alma contemplativa a vagar pelo universo). Afinal de contas, quem está tentando importar a polêmica? (o editorial não dá nomes!!) Será que essa polêmica não está latente nas mentalidades dos empresários detentores dos meios de comunicação, religiosos muitos deles, especialmente aqueles que compram canais de televisão e estações de rádio para divulgar a palavra de Deus?

Quando políticos ou pessoas ligadas a entidades religiosas pressionam as autoridades em educação a rever currículos em escolas públicas ou quando as escolas particulares censuram o ensino de evolução nas aulas de Biologia e ainda desestimulam a organização de eventos relacionados à evolução, está havendo sim uma "guerra" e, nestes casos, os cientistas e educadores ligados à ciência estão na defensiva.

Concluindo, não compartilho dessa visão expressa pela mídia sobre questões que envolvem ciência, especialmente sobre o evolucionismo, e religião. Considero ainda que é uma postura covarde de quem tem algum interesse a defender e não está comprometido com o conhecimento ou mesmo com a informação.

domingo, 11 de abril de 2010

Grupo de História e Filosofia da Ciência

No último sábado foi realizada a reunião do grupo de História e Filosofia da Ciência, com as participações minha, do Prof. Nícolas Lavor de Albuquerque e dos estudantes Elaine Palmezan, Felipe Guedes, Loris Lessa e Raquel Koch. O grupo decidiu as atividades a serem realizadas durante o ano de 2010 e estabeleceu um calendário de reuniões e atividades, incluindo a realização de projetos de iniciação científica. A próxima reunião foi marcada para o dia 29/05/2010 às 10:00 horas da manhã em local ainda a ser decidido. Quem tiver interesse em entrar para o grupo, escreva para o meu endereço eletrônico ou deixe um comentário aqui, informando endereço para que eu possa responder e marcar uma conversa. Esperamos por vocês.

Abraço a todos!!

terça-feira, 30 de março de 2010

Está no ar um novo portal idealizado por André Carvalho e construído pelos alunos Cauê Vida e Marcelo Colagrande sobre ética ambiental. O endereço é o seguinte:


http://www.eticaambiental.net.br

domingo, 28 de março de 2010

Livros recomendados

O assunto é evolução, logo vou recomendar um livro, correndo o risco de cair no lugar comum, mas com a intuição que muita gente ainda não leu. Trata-se, nada mais nada menos de "A origem das espécies" de Charles Darwin, livro fácil de se conseguir, com edições baratas, inclusive de bolso, e é leitura obrigatória para os futuros biólogos. O livro traz várias das discussões mais importantes sobre o evolucionismo, inclusive as que estão sendo publicadas no blog.
Para quem já leu o livro do Darwin, recomendo ainda os seguintes livros:

Darwin e os grandes enigmas da vida de Stephen Jay Gould

Isto é Biologia e Biologia, ciência única de Ernst Mayr

A grande história da Evolução e O maior espetáculo da Terra, ambos do Richard Dawkins,

Todos possuem traduções para o português brasileiro disponíveis nas livrarias.

Abraços a todos!

A "escada" da natureza, diversidade e o sentido da evolução

A Teoria da Evolução é a síntese de um conjunto enorme de fatos e de conhecimentos que foram acumulados durante séculos e que, por isso, confere um grau de complexidade muito grande a ela e, por não se tratar de um corpo de conhecimentos matematizado no sentido em que vemos ser feito na Física e na Química, as formulações permanecem no nível de linguagem natural, com todas as suas possibilidades de interpretação, de ambigüidades e de imprecisões.

Por ocasião do lançamento do livro "A origem das espécies" de Charles Darwin (1859), muitas pessoas, entre elas cientistas consagrados, encontraram uma excelente justificativa para atitudes e comportamentos que eram praticados naquela época, alguns deles originado há séculos por povos, cuja cultura é baseada na tradição judaico-cristã, com algumas tintas da cultura grega clássica. A idéia central é a de que o homem branco ocidental é superior ao de outros grupos étnicos (o termo utilizado era, e ainda é em muitos lugares, "raça") por ter desenvolvido uma civilização muito sofisticada, comparada à vida tribal ou a alguma forma de civilização em estágio inferior. Essa idéia justificava as guerras, o colonialismo e a escravidão e, com a consagração do evolucionismo, consolidou-se essa forma de pensar em bases científicas e ficou conhecida como Darwinismo Social. Vale lembrar que Charles Darwin nunca endossou tais idéias, pois enxergava a evolução como um processo um tanto diferente da idéia por trás dessa corrente de pensamento, como será destacado abaixo.

Por trás do Darwinismo Social estão os conceitos de "superior" e "inferior" que, por sua vez estão relacionados com o conceito mais amplo de uma escala da natureza que remonta a Aristóteles (sob influência de Platão), com o homem ocupando o degrau mais alto da escala (ou escada?). A explicação evolucionista com tinturas sociais sinonimiza "inferior" com "primitivo" e "superior" com "evoluído" e completa o arcabouço conceitual com a idéia de progresso da evolução, significando que o sentido da mudança foi dos organismos mais simples (que tal bactérias?) para os mais complexos (que tal o homem?). Jean-Baptiste-Pierre-Antoine de Monet, aquele, o Chevalier de Lamarck também expressou idéias semelhantes, mas admitia também que a transformação dos organismos se dava por divergência a partir do ramo principal (quer dizer, no profcesso de transformação ocorre aumento da diversidade). Charles Darwin foi muito enfático em dizer que a "descendência com modificação" tem um caráter divergente e não é necessariamente progressiva. Basta observar a única ilustração original presente em seu livro.

Atualmente, no meio científico, há um consenso de que a evolução ocorre de ambas maneiras, mas resta o problema de como afirmar que ocorre progresso e aumento de complexidade como resultado do processo evolutivo preservando o cânone da objetividade científica (será que objetividade da ciência é um mito? Este é outro tópico que dá muito o que discutir!), sem dar um caráter normativo para os conceitos, enfim, sem colocar uma carga moral neles?

As palavras "progresso" e "complexidade" são muito problemáticos do ponto de vista filosófico, pois implicam em ter uma referência. Se admitirmos que a evolução ocorre no sentido do mais simples para o mais complexo, qual é a medida para julgarmos isso? O homem? (ora, temos aqui algo que vem de Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas". Platão não gostava muito disso; basta ver os seus diálogos Teeteto e Sofista). Quando fazemos isso, na verdade, estamos colocando nossa moral na frente de toda e qualquer consideração científica. Estamos dando um juízo de valor para algo que deveria descrever um fenômeno científico de maneira objetiva (ou seja, sem cair na subjetividade). Se a evolução ocorre por seleção natural e esta relaciona-se com as condições do ambiente e este, por sua vez, muda, como podemos afirmar que um determinado organismo é melhor do que outro, uma vez que ambos vivem bem nas condições ambientais dadas?

Alex Rosenberg e Daniel McShea, no livro Philosophy of Biology, discutem de maneira muito clara esse problema e afirmam que o uso de termos como "melhor", "mais complexos", "mais adaptados", etc., pode dar-se apenas em um sentido instrumental e não normativo, ou seja, com aquela carga moral que o homem imprime a tudo o que lhe diz respeito. Nós não nos damos conta e escrevemos textos considerados científicos e ensinamos evolução nas selas de aula utilizando esses termos espontaneamente, porque talvez seja mais fácil explicar o assunto, mas que tem como conseqüência indesejável o sacrifício do rigor científico. Por essa razão os autores dão uma "alfinetada" em Stephen Jay Gould, um crítico ferrenho da idéia de progresso na evolução, mas que usa ocasionalmente (e inconscientemente?) termos que expressam a idéia de progresso.

Qual o critério para determinar progresso? Maior complexidade estrutural, sucesso reprodutivo, ocupação de mais ambientes ou maior diversidade de espécies? Olhando um pouco para os registros sobre a história da vida na Terra, nota-se que surgiram planos estruturais que, de certa maneira refletem um aumento de complexidade, porém, nota-se também que, dentro de cada plano estrutural, ocorreu diversificação, o que é fácil de perceber quando se compara a morfologia de diferentes Arthropoda ou de diferentes Vertebrata. A comparação entre os Arthropoda e os Vertebrata coloca alguns desafios, pois se, por um lado a complexidade estrutural de Vertebrata é maior, a diversidade de Arthropoda é maior. Quem é mais bem sucedido do ponto de vista evolutivo?

sábado, 13 de março de 2010

Vejam também o blog do Prof. André Carvalho

o endereço é: http://www.biologiaprofunda.blogspot.com

Qual é o futuro da evolução humana?

Outro dia em uma aula sobres sistemática biológica eu comentava que não é possível prever como será a evolução da espécie humana, a despeito das tentativas feitas por alguns escritores de livros de divulgação científica e (por que não?) de alguns cientistas de indicar possíveis caminhos, ao descrever como será o homem no próximo milhão de anos. Uma aluna comentou que um professor da escola onde ela estudou disse que, de acordo com o que se sabe sobre o assunto, o homem do futuro terá a cabeça maior, devido ao crescimento do cérebro, perderemos o pêlos restantes do corpo, o nariz também ficará reduzido às duas aberturas e os olhos serão grandes. Pensei: nossa!!! Isso parece filme de ficção científica e ficaremos iguais às representações dos seres extraterrestres que são amplamente divulgadas (aliás, como muita criatividade, já que são baseadas em animais que existem aqui, como por exemplo, insetos.). Creio que esse tipo de descrição confere um poder para quem explica o assunto, pois parece que o sujeito tem a chave para os mistérios que nos cercam, estimula a imaginação das pessoas, vende livros e revistas, faz a reputação de alguns, mas peca pela falta de um mínimo rigor científico.
Se examinarmos os livros que tratam sobre evolução humana de forma mais séria, veremos que contêm cenários de como pode ter se dado a evolução a partir de nossos ancestrais, com base nos fragmentos de ossos encontrados em diversos sítios na África, na China e na Europa. Comenta-se muito sobre a mudança de posição do dedo polegar (tem até o blog do amigo da Andréa, que tive o prazer de conhecer, chamado Polegar Opositor; vale a pena conferir.), que permitiu a manipulação mais precisa de objetos, do bipedalismo que teria então livrado as mãos para outras atividades e, talvez como conseqüência disso tudo, o aumento do volume do cérebro, refletido no tamanho da caixa craniana que se observou nos fósseis de hominídeos. Todavia, não vemos nesses mesmos livros mais sérios, previsões para o futuro da espécie humana, ou pelo menos, nada tão preciso assim. Sabemos que a evolução depende em parte das condições do ambiente e, mesmo que saibamos que o homem criou condições especiais mais homogêneas para viver, não saberemos no que isso vai resultar. Portanto, as tentativas para isso são meramente especulativas.
Essa questão está na raiz de outras questões, de caráter epistemológico, a saber: o que é ciência? Como distinguir aquilo que pode ser considerado ciência da chamada pseudociência ou ainda da metafísica? Do ponto de vista de uma parte da comunidade de matemáticos, de lógicos, de físicos e de químicos, algumas áreas da Biologia não são consideradas como ciência, pois não podem ser reduzidas às explicações de natureza físico-química, não podem ser explicadas em termos de equações gerais, como as que vemos na física (mecânica clássica, relatividade e quântica) e, finalmente, não possuem poder de previsão de fenômenos. Esses aspectos são fonte inesgotável de discussão na literatura especializada.
Ao examinarmos a teoria da evolução, vemos que ela tem um caráter retrospectivo, ou seja, olha-se para trás, para o passado e não para o futuro, mas o desenvolvimento da Sistemática Filogenética pelo entomólogo alemão Willi Hennig, a partir de 1950, da Biogoegrafia por Leon Croizat mais ou menos na mesma época e as descobertas da Paleontologia ao longo do século XX, mudaram um pouco esse quadro, pois é possível ter algum poder de previsão quanto à possibilidade de se prever onde será encontrado um fóssil representante de determinado grupo ou ainda que poderá ser encontrada uma espécie ainda existente em determinada localidade. Essas possibilidades conferem mais seriedade à Biologia, apesar de que não parecem tão atraentes aos olhos do grande público.

domingo, 7 de março de 2010

Evolucionismo: passado, presente e futuro

Esta é a primeira postagem do blog, que foi idealizado para discutir grandes temas relacionados à Biologia, em particular o evolucionismo, tema muito complexo e acredito, pouco compreendido, além de polêmico, tendo em vista as recentes tentativas de pessoas, entre elas pesquisadores renomados, de descaracterizar o evolucionismo e inserir no currículo das escolas o criacionismo, alegando tratar-se de um ciência, tanto quanto o evolucionismo. São os adeptos do disign inteligente (ou seria desígnio inteligente? anglicismos podem dar um certo charme para a língua, mas acho que a nossa está cheia deles demais!!). É também uma assunto amplamente ignorado pelos leigos, pois não possui uma aplicação imediata que possa salvar a vida das pessoas ou que possa gerar lucros, e mesmo por uma boa parte dos estudantes de Biologia de hoje, provavelmente por problemas de formação nas escolas em todos os níveis.
Outro assunto a ser discutido aqui será o que aconteceu em mais de 150 anos em que o evolucionismo foi colocado à prova; o que mudou desde a publicação do livro A Origem das Espécies por Charles Darwin até hoje? Por que são publicados ainda tantos livros sobre o assunto? Novas descobertas foram feitas ou seria apenas uma forma oportunista de ganhar dinheiro com um assunto quente?
Nas próximas edições do Blog serão postados os primeiros textos sobre esses e outros assuntos.