terça-feira, 30 de março de 2010

Está no ar um novo portal idealizado por André Carvalho e construído pelos alunos Cauê Vida e Marcelo Colagrande sobre ética ambiental. O endereço é o seguinte:


http://www.eticaambiental.net.br

domingo, 28 de março de 2010

Livros recomendados

O assunto é evolução, logo vou recomendar um livro, correndo o risco de cair no lugar comum, mas com a intuição que muita gente ainda não leu. Trata-se, nada mais nada menos de "A origem das espécies" de Charles Darwin, livro fácil de se conseguir, com edições baratas, inclusive de bolso, e é leitura obrigatória para os futuros biólogos. O livro traz várias das discussões mais importantes sobre o evolucionismo, inclusive as que estão sendo publicadas no blog.
Para quem já leu o livro do Darwin, recomendo ainda os seguintes livros:

Darwin e os grandes enigmas da vida de Stephen Jay Gould

Isto é Biologia e Biologia, ciência única de Ernst Mayr

A grande história da Evolução e O maior espetáculo da Terra, ambos do Richard Dawkins,

Todos possuem traduções para o português brasileiro disponíveis nas livrarias.

Abraços a todos!

A "escada" da natureza, diversidade e o sentido da evolução

A Teoria da Evolução é a síntese de um conjunto enorme de fatos e de conhecimentos que foram acumulados durante séculos e que, por isso, confere um grau de complexidade muito grande a ela e, por não se tratar de um corpo de conhecimentos matematizado no sentido em que vemos ser feito na Física e na Química, as formulações permanecem no nível de linguagem natural, com todas as suas possibilidades de interpretação, de ambigüidades e de imprecisões.

Por ocasião do lançamento do livro "A origem das espécies" de Charles Darwin (1859), muitas pessoas, entre elas cientistas consagrados, encontraram uma excelente justificativa para atitudes e comportamentos que eram praticados naquela época, alguns deles originado há séculos por povos, cuja cultura é baseada na tradição judaico-cristã, com algumas tintas da cultura grega clássica. A idéia central é a de que o homem branco ocidental é superior ao de outros grupos étnicos (o termo utilizado era, e ainda é em muitos lugares, "raça") por ter desenvolvido uma civilização muito sofisticada, comparada à vida tribal ou a alguma forma de civilização em estágio inferior. Essa idéia justificava as guerras, o colonialismo e a escravidão e, com a consagração do evolucionismo, consolidou-se essa forma de pensar em bases científicas e ficou conhecida como Darwinismo Social. Vale lembrar que Charles Darwin nunca endossou tais idéias, pois enxergava a evolução como um processo um tanto diferente da idéia por trás dessa corrente de pensamento, como será destacado abaixo.

Por trás do Darwinismo Social estão os conceitos de "superior" e "inferior" que, por sua vez estão relacionados com o conceito mais amplo de uma escala da natureza que remonta a Aristóteles (sob influência de Platão), com o homem ocupando o degrau mais alto da escala (ou escada?). A explicação evolucionista com tinturas sociais sinonimiza "inferior" com "primitivo" e "superior" com "evoluído" e completa o arcabouço conceitual com a idéia de progresso da evolução, significando que o sentido da mudança foi dos organismos mais simples (que tal bactérias?) para os mais complexos (que tal o homem?). Jean-Baptiste-Pierre-Antoine de Monet, aquele, o Chevalier de Lamarck também expressou idéias semelhantes, mas admitia também que a transformação dos organismos se dava por divergência a partir do ramo principal (quer dizer, no profcesso de transformação ocorre aumento da diversidade). Charles Darwin foi muito enfático em dizer que a "descendência com modificação" tem um caráter divergente e não é necessariamente progressiva. Basta observar a única ilustração original presente em seu livro.

Atualmente, no meio científico, há um consenso de que a evolução ocorre de ambas maneiras, mas resta o problema de como afirmar que ocorre progresso e aumento de complexidade como resultado do processo evolutivo preservando o cânone da objetividade científica (será que objetividade da ciência é um mito? Este é outro tópico que dá muito o que discutir!), sem dar um caráter normativo para os conceitos, enfim, sem colocar uma carga moral neles?

As palavras "progresso" e "complexidade" são muito problemáticos do ponto de vista filosófico, pois implicam em ter uma referência. Se admitirmos que a evolução ocorre no sentido do mais simples para o mais complexo, qual é a medida para julgarmos isso? O homem? (ora, temos aqui algo que vem de Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas". Platão não gostava muito disso; basta ver os seus diálogos Teeteto e Sofista). Quando fazemos isso, na verdade, estamos colocando nossa moral na frente de toda e qualquer consideração científica. Estamos dando um juízo de valor para algo que deveria descrever um fenômeno científico de maneira objetiva (ou seja, sem cair na subjetividade). Se a evolução ocorre por seleção natural e esta relaciona-se com as condições do ambiente e este, por sua vez, muda, como podemos afirmar que um determinado organismo é melhor do que outro, uma vez que ambos vivem bem nas condições ambientais dadas?

Alex Rosenberg e Daniel McShea, no livro Philosophy of Biology, discutem de maneira muito clara esse problema e afirmam que o uso de termos como "melhor", "mais complexos", "mais adaptados", etc., pode dar-se apenas em um sentido instrumental e não normativo, ou seja, com aquela carga moral que o homem imprime a tudo o que lhe diz respeito. Nós não nos damos conta e escrevemos textos considerados científicos e ensinamos evolução nas selas de aula utilizando esses termos espontaneamente, porque talvez seja mais fácil explicar o assunto, mas que tem como conseqüência indesejável o sacrifício do rigor científico. Por essa razão os autores dão uma "alfinetada" em Stephen Jay Gould, um crítico ferrenho da idéia de progresso na evolução, mas que usa ocasionalmente (e inconscientemente?) termos que expressam a idéia de progresso.

Qual o critério para determinar progresso? Maior complexidade estrutural, sucesso reprodutivo, ocupação de mais ambientes ou maior diversidade de espécies? Olhando um pouco para os registros sobre a história da vida na Terra, nota-se que surgiram planos estruturais que, de certa maneira refletem um aumento de complexidade, porém, nota-se também que, dentro de cada plano estrutural, ocorreu diversificação, o que é fácil de perceber quando se compara a morfologia de diferentes Arthropoda ou de diferentes Vertebrata. A comparação entre os Arthropoda e os Vertebrata coloca alguns desafios, pois se, por um lado a complexidade estrutural de Vertebrata é maior, a diversidade de Arthropoda é maior. Quem é mais bem sucedido do ponto de vista evolutivo?

sábado, 13 de março de 2010

Vejam também o blog do Prof. André Carvalho

o endereço é: http://www.biologiaprofunda.blogspot.com

Qual é o futuro da evolução humana?

Outro dia em uma aula sobres sistemática biológica eu comentava que não é possível prever como será a evolução da espécie humana, a despeito das tentativas feitas por alguns escritores de livros de divulgação científica e (por que não?) de alguns cientistas de indicar possíveis caminhos, ao descrever como será o homem no próximo milhão de anos. Uma aluna comentou que um professor da escola onde ela estudou disse que, de acordo com o que se sabe sobre o assunto, o homem do futuro terá a cabeça maior, devido ao crescimento do cérebro, perderemos o pêlos restantes do corpo, o nariz também ficará reduzido às duas aberturas e os olhos serão grandes. Pensei: nossa!!! Isso parece filme de ficção científica e ficaremos iguais às representações dos seres extraterrestres que são amplamente divulgadas (aliás, como muita criatividade, já que são baseadas em animais que existem aqui, como por exemplo, insetos.). Creio que esse tipo de descrição confere um poder para quem explica o assunto, pois parece que o sujeito tem a chave para os mistérios que nos cercam, estimula a imaginação das pessoas, vende livros e revistas, faz a reputação de alguns, mas peca pela falta de um mínimo rigor científico.
Se examinarmos os livros que tratam sobre evolução humana de forma mais séria, veremos que contêm cenários de como pode ter se dado a evolução a partir de nossos ancestrais, com base nos fragmentos de ossos encontrados em diversos sítios na África, na China e na Europa. Comenta-se muito sobre a mudança de posição do dedo polegar (tem até o blog do amigo da Andréa, que tive o prazer de conhecer, chamado Polegar Opositor; vale a pena conferir.), que permitiu a manipulação mais precisa de objetos, do bipedalismo que teria então livrado as mãos para outras atividades e, talvez como conseqüência disso tudo, o aumento do volume do cérebro, refletido no tamanho da caixa craniana que se observou nos fósseis de hominídeos. Todavia, não vemos nesses mesmos livros mais sérios, previsões para o futuro da espécie humana, ou pelo menos, nada tão preciso assim. Sabemos que a evolução depende em parte das condições do ambiente e, mesmo que saibamos que o homem criou condições especiais mais homogêneas para viver, não saberemos no que isso vai resultar. Portanto, as tentativas para isso são meramente especulativas.
Essa questão está na raiz de outras questões, de caráter epistemológico, a saber: o que é ciência? Como distinguir aquilo que pode ser considerado ciência da chamada pseudociência ou ainda da metafísica? Do ponto de vista de uma parte da comunidade de matemáticos, de lógicos, de físicos e de químicos, algumas áreas da Biologia não são consideradas como ciência, pois não podem ser reduzidas às explicações de natureza físico-química, não podem ser explicadas em termos de equações gerais, como as que vemos na física (mecânica clássica, relatividade e quântica) e, finalmente, não possuem poder de previsão de fenômenos. Esses aspectos são fonte inesgotável de discussão na literatura especializada.
Ao examinarmos a teoria da evolução, vemos que ela tem um caráter retrospectivo, ou seja, olha-se para trás, para o passado e não para o futuro, mas o desenvolvimento da Sistemática Filogenética pelo entomólogo alemão Willi Hennig, a partir de 1950, da Biogoegrafia por Leon Croizat mais ou menos na mesma época e as descobertas da Paleontologia ao longo do século XX, mudaram um pouco esse quadro, pois é possível ter algum poder de previsão quanto à possibilidade de se prever onde será encontrado um fóssil representante de determinado grupo ou ainda que poderá ser encontrada uma espécie ainda existente em determinada localidade. Essas possibilidades conferem mais seriedade à Biologia, apesar de que não parecem tão atraentes aos olhos do grande público.

domingo, 7 de março de 2010

Evolucionismo: passado, presente e futuro

Esta é a primeira postagem do blog, que foi idealizado para discutir grandes temas relacionados à Biologia, em particular o evolucionismo, tema muito complexo e acredito, pouco compreendido, além de polêmico, tendo em vista as recentes tentativas de pessoas, entre elas pesquisadores renomados, de descaracterizar o evolucionismo e inserir no currículo das escolas o criacionismo, alegando tratar-se de um ciência, tanto quanto o evolucionismo. São os adeptos do disign inteligente (ou seria desígnio inteligente? anglicismos podem dar um certo charme para a língua, mas acho que a nossa está cheia deles demais!!). É também uma assunto amplamente ignorado pelos leigos, pois não possui uma aplicação imediata que possa salvar a vida das pessoas ou que possa gerar lucros, e mesmo por uma boa parte dos estudantes de Biologia de hoje, provavelmente por problemas de formação nas escolas em todos os níveis.
Outro assunto a ser discutido aqui será o que aconteceu em mais de 150 anos em que o evolucionismo foi colocado à prova; o que mudou desde a publicação do livro A Origem das Espécies por Charles Darwin até hoje? Por que são publicados ainda tantos livros sobre o assunto? Novas descobertas foram feitas ou seria apenas uma forma oportunista de ganhar dinheiro com um assunto quente?
Nas próximas edições do Blog serão postados os primeiros textos sobre esses e outros assuntos.