terça-feira, 30 de março de 2010
domingo, 28 de março de 2010
Livros recomendados
A "escada" da natureza, diversidade e o sentido da evolução
A Teoria da Evolução é a síntese de um conjunto enorme de fatos e de conhecimentos que foram acumulados durante séculos e que, por isso, confere um grau de complexidade muito grande a ela e, por não se tratar de um corpo de conhecimentos matematizado no sentido em que vemos ser feito na Física e na Química, as formulações permanecem no nível de linguagem natural, com todas as suas possibilidades de interpretação, de ambigüidades e de imprecisões.
Por ocasião do lançamento do livro "A origem das espécies" de Charles Darwin (1859), muitas pessoas, entre elas cientistas consagrados, encontraram uma excelente justificativa para atitudes e comportamentos que eram praticados naquela época, alguns deles originado há séculos por povos, cuja cultura é baseada na tradição judaico-cristã, com algumas tintas da cultura grega clássica. A idéia central é a de que o homem branco ocidental é superior ao de outros grupos étnicos (o termo utilizado era, e ainda é em muitos lugares, "raça") por ter desenvolvido uma civilização muito sofisticada, comparada à vida tribal ou a alguma forma de civilização em estágio inferior. Essa idéia justificava as guerras, o colonialismo e a escravidão e, com a consagração do evolucionismo, consolidou-se essa forma de pensar em bases científicas e ficou conhecida como Darwinismo Social. Vale lembrar que Charles Darwin nunca endossou tais idéias, pois enxergava a evolução como um processo um tanto diferente da idéia por trás dessa corrente de pensamento, como será destacado abaixo.
Por trás do Darwinismo Social estão os conceitos de "superior" e "inferior" que, por sua vez estão relacionados com o conceito mais amplo de uma escala da natureza que remonta a Aristóteles (sob influência de Platão), com o homem ocupando o degrau mais alto da escala (ou escada?). A explicação evolucionista com tinturas sociais sinonimiza "inferior" com "primitivo" e "superior" com "evoluído" e completa o arcabouço conceitual com a idéia de progresso da evolução, significando que o sentido da mudança foi dos organismos mais simples (que tal bactérias?) para os mais complexos (que tal o homem?). Jean-Baptiste-Pierre-Antoine de Monet, aquele, o Chevalier de Lamarck também expressou idéias semelhantes, mas admitia também que a transformação dos organismos se dava por divergência a partir do ramo principal (quer dizer, no profcesso de transformação ocorre aumento da diversidade). Charles Darwin foi muito enfático em dizer que a "descendência com modificação" tem um caráter divergente e não é necessariamente progressiva. Basta observar a única ilustração original presente em seu livro.
Atualmente, no meio científico, há um consenso de que a evolução ocorre de ambas maneiras, mas resta o problema de como afirmar que ocorre progresso e aumento de complexidade como resultado do processo evolutivo preservando o cânone da objetividade científica (será que objetividade da ciência é um mito? Este é outro tópico que dá muito o que discutir!), sem dar um caráter normativo para os conceitos, enfim, sem colocar uma carga moral neles?
As palavras "progresso" e "complexidade" são muito problemáticos do ponto de vista filosófico, pois implicam em ter uma referência. Se admitirmos que a evolução ocorre no sentido do mais simples para o mais complexo, qual é a medida para julgarmos isso? O homem? (ora, temos aqui algo que vem de Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas". Platão não gostava muito disso; basta ver os seus diálogos Teeteto e Sofista). Quando fazemos isso, na verdade, estamos colocando nossa moral na frente de toda e qualquer consideração científica. Estamos dando um juízo de valor para algo que deveria descrever um fenômeno científico de maneira objetiva (ou seja, sem cair na subjetividade). Se a evolução ocorre por seleção natural e esta relaciona-se com as condições do ambiente e este, por sua vez, muda, como podemos afirmar que um determinado organismo é melhor do que outro, uma vez que ambos vivem bem nas condições ambientais dadas?
Alex Rosenberg e Daniel McShea, no livro Philosophy of Biology, discutem de maneira muito clara esse problema e afirmam que o uso de termos como "melhor", "mais complexos", "mais adaptados", etc., pode dar-se apenas em um sentido instrumental e não normativo, ou seja, com aquela carga moral que o homem imprime a tudo o que lhe diz respeito. Nós não nos damos conta e escrevemos textos considerados científicos e ensinamos evolução nas selas de aula utilizando esses termos espontaneamente, porque talvez seja mais fácil explicar o assunto, mas que tem como conseqüência indesejável o sacrifício do rigor científico. Por essa razão os autores dão uma "alfinetada" em Stephen Jay Gould, um crítico ferrenho da idéia de progresso na evolução, mas que usa ocasionalmente (e inconscientemente?) termos que expressam a idéia de progresso.
Qual o critério para determinar progresso? Maior complexidade estrutural, sucesso reprodutivo, ocupação de mais ambientes ou maior diversidade de espécies? Olhando um pouco para os registros sobre a história da vida na Terra, nota-se que surgiram planos estruturais que, de certa maneira refletem um aumento de complexidade, porém, nota-se também que, dentro de cada plano estrutural, ocorreu diversificação, o que é fácil de perceber quando se compara a morfologia de diferentes Arthropoda ou de diferentes Vertebrata. A comparação entre os Arthropoda e os Vertebrata coloca alguns desafios, pois se, por um lado a complexidade estrutural de Vertebrata é maior, a diversidade de Arthropoda é maior. Quem é mais bem sucedido do ponto de vista evolutivo?