sábado, 13 de março de 2010

Qual é o futuro da evolução humana?

Outro dia em uma aula sobres sistemática biológica eu comentava que não é possível prever como será a evolução da espécie humana, a despeito das tentativas feitas por alguns escritores de livros de divulgação científica e (por que não?) de alguns cientistas de indicar possíveis caminhos, ao descrever como será o homem no próximo milhão de anos. Uma aluna comentou que um professor da escola onde ela estudou disse que, de acordo com o que se sabe sobre o assunto, o homem do futuro terá a cabeça maior, devido ao crescimento do cérebro, perderemos o pêlos restantes do corpo, o nariz também ficará reduzido às duas aberturas e os olhos serão grandes. Pensei: nossa!!! Isso parece filme de ficção científica e ficaremos iguais às representações dos seres extraterrestres que são amplamente divulgadas (aliás, como muita criatividade, já que são baseadas em animais que existem aqui, como por exemplo, insetos.). Creio que esse tipo de descrição confere um poder para quem explica o assunto, pois parece que o sujeito tem a chave para os mistérios que nos cercam, estimula a imaginação das pessoas, vende livros e revistas, faz a reputação de alguns, mas peca pela falta de um mínimo rigor científico.
Se examinarmos os livros que tratam sobre evolução humana de forma mais séria, veremos que contêm cenários de como pode ter se dado a evolução a partir de nossos ancestrais, com base nos fragmentos de ossos encontrados em diversos sítios na África, na China e na Europa. Comenta-se muito sobre a mudança de posição do dedo polegar (tem até o blog do amigo da Andréa, que tive o prazer de conhecer, chamado Polegar Opositor; vale a pena conferir.), que permitiu a manipulação mais precisa de objetos, do bipedalismo que teria então livrado as mãos para outras atividades e, talvez como conseqüência disso tudo, o aumento do volume do cérebro, refletido no tamanho da caixa craniana que se observou nos fósseis de hominídeos. Todavia, não vemos nesses mesmos livros mais sérios, previsões para o futuro da espécie humana, ou pelo menos, nada tão preciso assim. Sabemos que a evolução depende em parte das condições do ambiente e, mesmo que saibamos que o homem criou condições especiais mais homogêneas para viver, não saberemos no que isso vai resultar. Portanto, as tentativas para isso são meramente especulativas.
Essa questão está na raiz de outras questões, de caráter epistemológico, a saber: o que é ciência? Como distinguir aquilo que pode ser considerado ciência da chamada pseudociência ou ainda da metafísica? Do ponto de vista de uma parte da comunidade de matemáticos, de lógicos, de físicos e de químicos, algumas áreas da Biologia não são consideradas como ciência, pois não podem ser reduzidas às explicações de natureza físico-química, não podem ser explicadas em termos de equações gerais, como as que vemos na física (mecânica clássica, relatividade e quântica) e, finalmente, não possuem poder de previsão de fenômenos. Esses aspectos são fonte inesgotável de discussão na literatura especializada.
Ao examinarmos a teoria da evolução, vemos que ela tem um caráter retrospectivo, ou seja, olha-se para trás, para o passado e não para o futuro, mas o desenvolvimento da Sistemática Filogenética pelo entomólogo alemão Willi Hennig, a partir de 1950, da Biogoegrafia por Leon Croizat mais ou menos na mesma época e as descobertas da Paleontologia ao longo do século XX, mudaram um pouco esse quadro, pois é possível ter algum poder de previsão quanto à possibilidade de se prever onde será encontrado um fóssil representante de determinado grupo ou ainda que poderá ser encontrada uma espécie ainda existente em determinada localidade. Essas possibilidades conferem mais seriedade à Biologia, apesar de que não parecem tão atraentes aos olhos do grande público.

5 comentários:

  1. Primeiramente parabéns pelo Blog... espero que esse novo canal de contato fortaleça-se e ajude-nos a descobrir um pouco mais sobre Biologia.

    Em segundo lugar, para nutrir a discussão sobre como serão os seres vivos nos próximos milhões de anos, essa discussão está em voga nos canais de comunicação, um exemplo simples que uso é a última edição da revista Galileu que sai às bancas com duas capas, uma projetando como os gatos serão e outra projetando como os cães serão, seu título é "Como os animais serão no futuro"(http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI124025-17579,00-OS+ANIMAIS+DO+FUTURO+TRECHO.html). As suposições não chegam nessa matéria às teias da Evolução propriamente dita, mas se encaixam no previsionismo tarológico que a mídia impõe a ciência atualmente. No livro "O que é Ciência, afinal" em sua contracapa Chalmers diz algo semelhante às pessoas esperarem uma ciência mítica e poderosa capaz dos mais grandiosos feitos e tenta desvendar qual o real papel da Ciência. Sendo assim, será que a Ciência, principalmente uma não completamente exata como a Biologia, pode prever com clareza os eventos que ocorrerão no futuro com total certeza?

    Creio que não e acho que seu texto contribui para reforçar o que eu já imaginava.

    Obrigado pelo texto e continuarei acompanhando o Blog...

    Abraços!

    Felipe.

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  2. Olá Professor Armando, parabéns e queria incialmente lhe dizer que é um grande prazer ser membro de seu Blog.

    Queria aproveitar para lançar uma pergunta que não tenho certeza se irá encaixar totalmente com o tema, mas que discute referências do passado para tentar prever o futuro, eu estou falando do acelerador de partícula (LHC), pois segundo algumas matérias que tenho lido, mensiona-se a criação de condições similares da famosa teoria do "Big Bang". Minha dúvida é: se tal experimento der certo o que isso pode mudar no mundo da Ciência? Acharemos alguma resposta para algumas perguntas ainda em icognita?

    É isso ai, um grande abraço.

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  3. Primeiramente, gostaria de agradecer pelos comentários e pelo apoio do Felipe e do Bruno.

    Quanto ao ponto levantado pelo Felipe, na minha opinião, as revistas de divulgação científica publicadas na Brasil possuem uma linha editorial que busca mais os assuntos que mexem com o imaginário das pessoas (e daí a preocupação com o que pode vender mais revistas) do que o compromisso com a informação mais qualificada. Os cientistas pesquisam fenômenos naturais muito complexos e, devemos admitir, são pouco competentes para comunicar as descobertas para o grande público, de maneira que haja um entendimento adequado. Esse papel é desempenhado por jornalistas, alguns com trânsito ou mesmo com formação na área de ciências, mas em geral fazem mal seu papel. Assim continuaremos a ler nessas revistas esse tipo de matéria, até o momento em que alguém venha a público para desmistificar o que foi escrito. Existe um bom exemplo disso no famoso caso do "Boimate", divulgado pela revista Veja em 1983 (é possível encontrar informações na internet).
    A pergunta do Bruna é mais difícil de responder, pois não sou físico. Os aceleradores de partículas são feitos para estudar o comportamento dos átomos e das partículas elementares, mediante certas condições, conhecidas pelos físicos. Dessa forma, eles podem entender melhor as forças que mantêm unidos os átomos e às partículas elementares e, conseqüentemente, descobrir algo mais sobre a história do universo. Nesse sentido, a Física é muito semelhante à Biologia, pois também olha para o passado em busca das origens, mas diferentemente da Biologia, o sistema axiomático da Física, estruturado fortemente pela matemática, permite fazer previsões sobre fenômenos específicos.


    Grande abraço!!!

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  4. Vou usar meu direito à Tréplica, Armando...

    Antes de tudo é importante esse contato extrassala (utilizando a nova ortografia, rs) com os professores, principalmente no limiar do fim do curso (eu tenho feito uma triste contagem regressiva no meu perfil do Orkut), pois quando acabar o curso não teremos contato diário com a Biologia e com a Ciência em geral, como temos hoje em dia. Será uma batalha diária, um desafio um pouco mais complexo (sobre complexidade, ler o próximo texto publicado pelo Armando) e árduo de se fazer, pois faremos, nós graduados, sozinhos. E eu acredito que o ambiente acadêmico poderia permitir mais trabalho em conjunto, mesmo depois do fim do curso.

    Por isso estou aproveitando todas as oportunidades de convivência com o ramo do conhecimento que escolhi...

    Voltando ao tópico...

    As edições científicas públicas tem seu papel relevante perante o Grande Público, mas não devem tratar levianamente sobre assuntos importantes. Cria-se um senso comum grave, eu me lembro de dois casos, a Febre Amarela no final de 2008, quando os jornalões começaram a alarmar a população a tomar vacina (Conceição Lemes comenta sobre isso em: http://www.viomundo.com.br/arquivo/denuncias/midia-fez-vacinacao-saltar-de-5-para-20-milhoes-de-doses/) e a Gripe Suína, que fez com que o pânico se espalhasse, principalmente por causa dos jornais que noticiaram que milhões de casos iriam ocorrer no Brasil (Conceição Lemes também comenta no Viomundo - http://www.viomundo.com.br/arquivo/denuncias/reportagem-da-folha-sobre-gripe-suina-e-totalmente-furada-uma-irresponsabilidade/).

    Eu li um sobre o caso Boimate (leiam no HumornaCiência, é muito engraçado, principalmente o jeribá: http://www.humornaciencia.com.br/noticias/boimate.htm) e também é terrível, parece que falta de pesquisa e veracidade nos fatos não param de acontecer na mídia. E o grande problema é que a maior parte da população tem acesso somente ao que a mídia conta. O que acontece dentro das Universidades, nas Universidades fica. E não vejo mudança em pouco tempo.

    A evolução por exemplo. Quantas pessoas realmente entendem a Teoria da Evolução? Eu digo entender razoavelmente, sem o Criacionismo Fundamentalista, ou sem a visão DI trivial, ou mesmo que creia no Design Inteligente tenha conhecimento sobre o que está falando. Saiu hoje uma pesquisa Datafolha sobre as crenças do brasileiro em relação ao desenvolvimento da espécie humana (leiam no meu blog: http://salamalequenababo.blogspot.com/). Um em cada três brasileiros acreditam em Adão e Eva literalmente, nada contra isso, mas será que essas pessoas tiveram um acesso adequado às outras opções de surgimento da vida?

    E se as pessoas não têm um acesso adequado a essas informações, até que ponto podemos verificar e contribuir para a realidade existente? Pois ser cientista, ao meu ver, não é apenas ficar no laboratório ou no campo pesquisando e na frente de um computador para publicar em uma revista, mas o cientista é aquele que contribui para modificar a própria realidade existente e deixar um mundo um pouco melhor (lembrando sempre que melhor não implica impor uma vontade, nem o melhor individual, mas dar acesso a todos ao conhecimento...)

    Grato novamente pela oportunidade!
    É ótimo comentar neste blog...

    Até mais, Abraço!

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